Oficial morto há 62 anos se recusou a bombardear Porto Alegre e foi primeiro militar vítima da Ditadura

  • 05/04/2026
(Foto: Reprodução)
Oficial morto há 62 anos se recusou a bombardear Porto Alegre e foi primeiro militar vítima da Ditadura Instituto Vladimir Herzog Em 4 de abril de 1964, apenas três dias após a deposição do presidente João Goulart, o tenente-coronel da Aeronáutica Alfeu de Alcântara Monteiro foi assassinado a tiros no Quartel General da 5ª Zona Aérea, em Canoas, na Região Metropolitana de Porto Alegre. 📲 Acesse o canal do g1 RS no WhatsApp Nascido em Itaqui, na Fronteira Oeste, ele foi reconhecido em 2018 pela Justiça Federal, como o primeiro militar vítima da ditadura. O oficial se recusou a apoiar o golpe e não acatou uma ordem de prisão. A versão oficial, divulgada pelos órgãos de repressão, sustentava que Alfeu havia sido morto em legítima defesa. Segundo o Inquérito Policial Militar (IPM) da época, ele teria ferido com dois tiros o interventor major-brigadeiro Nelson Lavanère Wanderley e por isso foi alvejado e morto. O autor do disparo fatal, o tenente-coronel Roberto Hipólito da Costa, foi absolvido. Ele era sobrinho do marechal Humberto de Alencar Castello Branco, o primeiro presidente do regime militar. No entanto, documentos e testemunhos contaram uma história diferente: a de uma execução a sangue frio. Caso de desaparecimento político na ditadura no RS espera reconhecimento, como no filme O Dossiê dos Mortos e Desaparecidos Políticos, do Comitê Brasileiro pela Anistia, revelou que Alfeu foi morto com "uma rajada de metralhadora pelas costas". O auto de necropsia confirmou a existência de 16 projéteis em seu corpo. "Foi uma execução, não tem outra definição. O número de tiros, as circunstâncias, o ângulo, os próprios laudos que depois de anos foram atestados comprovam isso", afirma o presidente do Movimento de Justiça e Direitos Humanos, Jair Krischke. De acordo com o relatório da Comissão Nacional da Verdade, no dia da morte o brigadeiro Wanderley iria prender todos os militares considerados legalistas. Alfeu, que respondia pelo subcomando, já havia sido informado de que seria transferido para um curso no Rio de Janeiro, mas recebeu uma convocação para comparecer ao QG. Durante a Campanha da Legalidade, em 1961, o militar atuou em defesa da posse constitucional do então vice-presidente João Goulart e esteve na linha de frente do movimento liderado pelo então governador Leonel Brizola e pelo general Machado Lopes, em Porto Alegre. 🔍 A Campanha da Legalidade foi uma mobilização política e militar em 1961, em Porto Alegre, para garantir o cumprimento da Constituição após a renúncia do presidente Jânio Quadros e assegurar a posse do vice-presidente eleito, João Goulart. Testemunhos reunidos também apontam que Alfeu e militares alinhados à Legalidade impediram a decolagem de aviões que poderiam ser usados para bombardear o Palácio Piratini, no Centro da capital. "O Alfeu tomou uma posição de que não decolariam. Ele era simpático ao Brizola, sem dúvida, mas ele era mais um sujeito que iria cumprir a Legalidade, a Constituição. Era um nacionalista e democrata empedernido. Não era um homem de esquerda e não tinha militância político-partidária", esclarece Krischke. Oficial morto há 62 anos foi primeiro militar vítima da Ditadura Comissão da Verdade de São Paulo Reviravolta no caso A luta da família e de movimentos de direitos humanos pela verdade durou décadas. Em 2014, o relatório final da comissão concluiu que Alfeu morreu "em decorrência de ação perpetrada por agentes do Estado brasileiro, em contexto de sistemáticas violações de direitos humanos". Anos depois, em uma Ação Civil Pública movida pelo Ministério Público Federal (MPF), a Justiça Federal declarou oficialmente que a morte de Alfeu foi um crime por "motivações político-ideológicas decorrentes do regime militar instaurado". A sentença determinou que a União retificasse os registros civis e militares do militar, incluindo na certidão de óbito a causa como "morte violenta" por "disparos de arma de fogo", pondo um fim jurídico à versão da legítima defesa. Em 2016, após aprovação de um projeto de lei, uma praça localizada junto ao viaduto da BR-116, no acesso a Canoas, foi batizada de Alfeu de Alcântara Monteiro. O espaço também recebeu um busto em homenagem ao militar falecido. Veja imagem abaixo "Neste busto, que agora se inaugura em homenagem a tua memória, ninguém mais acorrentará os teus ideais de um país independente e soberano. Já não mais se atreverão a interromper teus sonhos de Justiça", discursou o presidente do Movimento de Justiça e Direitos Humanos à época. Praça em Canoas tem nome e busto em homenagem ao militar Alfeu de Alcântara Monteiro Arquivo Pessoal VÍDEOS: Tudo sobre o RS

FONTE: https://g1.globo.com/rs/rio-grande-do-sul/noticia/2026/04/05/oficial-morto-ha-62-anos-se-recusou-a-bombardear-porto-alegre-e-foi-primeiro-militar-vitima-da-ditadura.ghtml


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